A linha que separa a verdade e a ficção

Tem sido bem difícil abordar temas mais diversificados em meio ao caos político que recentemente se instaurou no Brasil. Os acontecimentos tornaram-se tão barulhentos, que é complicado até fixar a concentração no trabalho que precisamos fazer todos os dias. No fundo, estamos ali, aguardando a primeira chance de engajar num debate e despejar nossas aflições.

Nos últimos meses, acontecimentos políticos se tornaram a principal fonte de conteúdo consumida por nós brasileiros. Estamos interagindo com nossos governantes e suas ações de uma forma que nunca foi vista antes, mas por ser um fenômeno relativamente novo, ainda não entendemos muito bem como lidar com tudo isso.

A mídia veio se modificando bastante ao longo dos últimos 20 anos. Veículos de comunicação que não existiam até as eleições de 2006, agora se multiplicam quase que diariamente. Atualmente existem variados formatos de blog e incontáveis sites de notícia, nem precisando entrar em detalhes sobre as redes sociais e sua assustadora capacidade de alcance. O ruído que envolve a informação está cada vez maior, resultando numa verdadeira corrida para ver quem consegue reter mais espectadores.

O mercado da atenção nunca foi tão competitivo, e os políticos sabem que precisam batalhar para ganhar terreno. Não é fácil convencer alguém a trocar uma conversa com a namorada ou um vídeo do Porta dos Fundos, pelas notícias de política no jornal das oito.

A solução que encontraram para esse problema é simples, transformar a narrativa política em algo mais parecido com as peças de entretenimento.

Não é por acaso que a reação do público está tão acalorada quanto os comentários do jogo do corinthians no último domingo. Os eventos da esfera governamental se transformaram em verdadeiros episódios de novela. E nós, os espectadores, acabamos num cenário onde o sensacionalismo e a espetacularização são uma comprovada fórmula para o sucesso, sendo cada vez mais difícil distinguir o que é spam, propaganda ou notícia.

E como nosso acesso aos acontecimentos políticos se dá quase que exclusivamente pelos meios de comunicação, a linha entre entretenimento e política fica cada vez mais borrada. Esperamos a mesma gratificação ao ler sobre as atitudes de um político, que esperamos quando lemos uma crônica do Jader no Papo de Homem.

O professor de ciência política e filósofo François Debrix chama esse fenômeno de realismo de tablóide. Uma forma de política estruturada por manchetes fáceis de serem absorvidas. Segundo ele, as pessoas não querem ler que estão recebendo menos em seus empregos, sendo exploradas no trabalho e outras notícias cotidianas. Nós queremos histórias glamurosas, escândalos e eventos excepcionais que os permitam sonhar ou desenvolver um senso de raiva. Resumindo, o que queremos é puro entretenimento.

Numa sociedade guiada pelo espetáculo, a coisa que soa melhor é a distração. Não importando muito se o japonês da Federal foi preso ou não. O que importa é que você clicou no link que prometia expor um novo escândalo, e que gosta de pensar que é verdade. Da mesma forma, não importa se o Obama citou o Brasil em seu pronunciamento, se a polícia militar bateu continência para os manifestantes em São Paulo ou se o Tiririca foi citado na operação lava jato por sua honestidade, essas narrativas serão sempre mais interessantes.

Os programas de televisão e outras formas de diversão surgiram como uma distração para os problemas da vida política, mas agora refletem uma verdade ainda maior. Como na famosa citação de Guy Debord, em A Sociedade do Espetáculo:

“Num mundo realmente às avessas, o verdadeiro é o momento do falso.” 

Tirando o fato da maioria das polêmicas na internet serem falsas, existe uma grande verdade escondida nesses boatos. Em nossa sociedade guiada pela imagem, nós não queremos saber o que é verdade, preferimos consumir o que nós desejamos que seja verdadeiro.

No fim, tendemos a votar em alguém que incorpore o que nós mesmos queremos acreditar, ao invés de optar por um candidato que realmente represente uma alternativa válida para nossa situação da política. O certame político, como observamos em 2014, se torna um enorme festival de boatos, confundindo os eleitores, que agora, não sabem mais no que podem ou não acreditar.

Estamos fazendo nossas escolhas baseados em sentimentos confusos. E o resultado, pelo que podemos ver, não tem sido nada satisfatório.

Aristoteles, em sua obra Política, defende que os seres humanos são animais cívicos, e nossa capacidade política é o que nos diferencia dos outros animais.

A democracia é fundada nessa mesma premissa, na consciência de que todos nós somos capazes de discernir o que é bom ou ruim, moral ou imoral. Enxergar o que existe nos bastidores desse grande cenário exige um empenho coletivo. Entender o que é verdadeiro, o que é boato e até onde vai a linha do espetáculo vai ficando cada vez mais difícil, mas para alcançar um resultado melhor do que temos hoje, precisamos ser menos passivos, evitar agir por impulsos e ser um pouco mais racionais, analisando os acontecimentos com cuidado e verificando a procedência de todas as informações que recebemos e compartilhamos.

Assim, a característica que torna a democracia uma maravilhosa ferramenta, é a mesma que a faz ser tão complicada. Todos nós somos um pouco responsáveis pelo que acontece no poder, e ao agirmos passivamente, também nos tornamos cúmplices das suas falhas.

* * Este texto foi publicado originalmente na newsletter Caos (Con)textual.

A arte da experimentação pessoal

Quinta-feira. Chego da academia, abro o computador e começo a preencher minhas planilhas. Estou testando um antigo método de treino que consiste em treinos diários de agachamento.

Não encontrei artigos científicos que sustentem essa hipótese, mas mesmo assim resolvi colocar à prova.

No mês em que faço este pequeno teste, tive um ganho de 4kg de massa muscular, aumentei meus pesos em 60% e minha namorada perguntou se estava usando esteroides.

Este é apenas apenas um dos vários outros experimentos que venho fazendo ao longo de muitos anos, colecionando uma série de resultados interessantes no caminho.

Por que tratar o corpo como um laboratório?

Tenho muita curiosidade em saber como as coisas funcionam. Aprendi a trabalhar com computadores fuçando no desconhecido, estudando programação, quebrando proteção de programas e fazendo um monte de testes diferentes. No curso de Física, passamos centenas de horas em laboratório observando, medindo e comparando resultados. É uma longa busca pelo entendimento de como o universo se comporta. É isso que me atrai na ciência.

A mesma ideia é verdadeira quando crio meus experimentos pessoais. Tudo o que faço é para entender como meu corpo e mente reagem à diferentes estímulos. Café me faz bem ou mal? Como meu corpo se comporta sem carboidratos? Deixar de reclamar pode me fazer mais feliz? Existe muito ruído no jornalismo científico. Um dia ovo faz bem, no outro faz mal. Sendo assim, muitas vezes o melhor a se fazer é ver como você determinada ideia funciona para você.

Mas o objetivo não é apenas testar práticas novas, é interessante entender como seu corpo já está trabalhando. Quantas gramas de gordura você consome por semana? Quantas calorias? Quantos quilômetros anda por dia? Existem muitas informações que são importantíssimas para nossa saúde e que ter uma clara ideia de como estamos nos comportando pode nos ajudar bastante. Também não estou sugerindo virar um paranoico que mede tudo, mas vez ou outra é importante fazer uma avaliação de como estamos vivendo.

Mas e a ciência?

Sempre que comento sobre meus experimentos pessoais, existe alguém para dizer  “Mas a amostragem de uma única pessoa não serve de parâmetro para conclusões”.

Tem toda razão, não serve mesmo.

Existem outros pontos em questão. Não estou tentando publicar um estudo afirmando que banhos frios melhoram a qualidade de vida das pessoas. Estou apenas dizendo que banhos frios me ajudaram a construir mais disciplina e força de vontade. Não pretendo afirmar que outras pessoas devem fazer o mesmo, aponto apenas o que funcionou para mim.

Para os que me acompanham, sabem que venho tratando minha vida como um grande experimento, testando diversas formas de viver com mais qualidade. Pode parecer algo bem distante da ciência tradicional e dos especialistas de jaleco, mas não é tão diferente do método cientifico como vemos em laboratórios.

Na prática funciona assim:

Eu penso em alguma necessidade, um problema ou dificuldade que tenho no meu cotidiano. Faço uma pesquisa em bancos de dados de artigos científicos, consulto livros acadêmicos e profissionais da área, coletando informações para construir uma hipótese. Aí vem a parte mais legal, testar a hipótese experimentalmente. Durante o experimento é muito importante coletar dados e informações, servindo de base para o que guiará minha conclusão.

Se achou isso tudo muito complicado, a versão simplificada é:

  • Pense em algo que possa fazer sua vida melhor

  • Faça isso por um período de tempo

  • Mude seu comportamento para se adequar ao que descobriu

Lembre-se que você não está tentando provar nada, simplesmente buscar formas de viver melhor, brincar com sua curiosidade e aprender um bocado no processo.

No que posso focar meus experimentos?

A vida é repleta de elementos passiveis de serem testados. Basta começar a fazer pequenos experimentos, que logo novas ideias surgirão.

Abaixo segue uma lista de itens que acho interessante testar:

Saúde e Exercícios

  • Dieta: Talvez esse seja o tipo mais comum, foi onde comecei meus primeiros testes. Zerar carboidratos? Um mês sem comer besteira? Jejum intermitente? Um mês inteiro com alimentação vegana? Vegetariano? Teve uma vez testei ficar sem comer carne por uma semana. Acabei virando vegetariano por  2 anos.

  • Resistência corporal: O que é melhor para você? Correr 10km ou fazer dez tiros de cem metros? Muay Thai ou Natação? Treinar todos os dias ou dar intervalos periódicos?

  • Força Corporal: Quantas barras consegue fazer? É melhor aumentar os pesos e reduzir as repetições ou reduzir os pesos aumentando repetições? E se reduzir todos os pesos por um mês, apenas lapidando as técnicas de execução? Como treinos de mobilidade e flexibilidade refletem no levantamento de peso?

  • Habilidades Esportivas: O que acha de aprender a dar um mortal de costas? Subir muros? Gosta de futebol? Quantas embaixadinhas consegue fazer? Se já treina algo, quando foi a última vez que testou uma estratégia diferente?

Trabalho

  • Produtividade: Este é um dos principais tópicos de teste da maioria das pessoas. O que pode fazer você mais produtivo? Meditação? Técnica pomodoro? Intervalos de 30 minutos? Listas? Um amigo cobrando suas tarefas?

  • Metas: Você funciona melhor com objetivos de longo prazo ou é melhor dividir em pequenos objetivos de curto prazo? Que incentivos pode adicionar para manter foco? Dissonância Cognitiva, serve para você?

Estilo de Vida

  • Hobbies: Por algum motivo, sinto que as pessoas falham muito neste aspecto. Tente não ser muito intenso com seus hobbies, procure fazer várias coisas e entender como você aprende melhor em cada uma delas.

  • Vícios: Bebendo muito café? Talvez seja uma boa passar algumas semanas sem cafeína. Quantos dias consegue ficar sem fumar? Qualquer coisa que possa gerar dependência é passível de testes. Ano passado passei maus bocados tentando eliminar meu vício em soros nasais. Demorei mas consegui.

  • Relacionamentos: O que acha de puxar assunto com pessoas estranhas na rua por uma semana? Já pensou em eliminar sua timeline do facebook? Ficar sem smartphone? O que as pessoas acham atraentes? Como ler linguagem corporal?

  • Felicidade: O que te faz feliz? O que te deixa triste? Como manipular essas variáveis?

Estes são apenas alguns exemplos, a lista poderia ser muito maior. O ponto é fornecer ideias do que é testável, do que podemos experimentar e melhorar em nossas vidas. A partir disso as coisas vão ficando mais individuais.

Como coletar dados dos meus experimentos?

A parte boa disso tudo é que a tecnologia, principalmente com a evolução dos aparelhos celulares, tem proporcionado ferramentas incríveis para mensurar nossas vidas. No entanto, existem diversas formas de registrar seus experimentos sem necessidade de utilizar muita tecnologia.

  • Caderninho: Ter um caderno comigo o tempo todo me ajuda a registrar percepções assim que elas surgem. Essa necessidade se torna mais evidente durante experimentos mais psicológicos, como os 21 dias sem reclamar, mas acaba sendo útil para qualquer experimento.

  • Excel / Google Spreadsheet: Na faculdade de física, a primeira coisa que aprendemos em laboratório é construir tabelas. Elas servem como base para toda nossa análise de dados. Isso não é muito diferente com experimentos pessoais. Pode ser uma tabela com pesos, uma escala própria para medir felicidade, humor, atenção e consumo de alguma substância. Tudo pode ser tabelado e usado para gerar um gráfico maneiro.

  • Optmism: Este é um aplicativo muito interessante, mesmo achando que poderia ser melhor executado. O app fornece uma série de listas (personalizáveis) com diversos elementos como humor, consumo de café, níveis de raiva, qualidade do sono e diversas outras variáveis, gerando um gráfico para acompanhamento.

  • Daytum: Site dedicado a coletar e organizar todo tipo de informação sobre você.

  • HealthMonth: É um site repleto de experimentos mensais.

  • Pulseiras Inteligentes: Existe uma série de pulseiras inteligentes no mercado, mas sou suspeito para opinar. Cheguei a comprar uma Nike Fuelband, mas a experiência foi bem ruim. Existem as Fitbit que prometem fazer algo similar. O que importa para os experimentos é que elas são capazes de medir várias informações do seu corpo ao longo do dia, servindo como parâmetro para analises.

O que mais preciso saber?

Existem algumas coisas que podem arruinar experimentos pessoais, vou listá-las por aqui, mas é impossível englobar todas as probabilidades.

  1. Não ter uma base comparativa: É importante ter dados para comparar os resultados. Se quer testar uma dieta ou exercício, por exemplo, é importante se pesar e tirar medidas antes. Se possível avaliar percentual de gordura e massa corporal. Pode ser interessante fazer exames de sangue e uma consulta com um médico. Quanto mais informações conseguir levantar de base, mais preciso serão os resultados.

  1. Isole as variáveis: Você não pode concluir que banho frio melhorou seu humor, se conseguiu um trabalho novo na mesma semana. Não dá pra dizer que um suplemento alimentar ajudou no ganho de massa, se você mudou o treino e toda sua alimentação no mesmo período. Separe as variáveis para evitar correlações falsas.

  1. Desistir cedo demais: Alguns experimentos exigem mais tempo que outros para apresentar resultados. É interessante ter um certo nível de persistência, garantir que testou a hipótese por tempo suficiente.

  2. Não tirar medidas precisas: Para experimentos psicológicos, este item é mais complicado, mas para alimentação, produtividade e testes relacionados com o corpo, conseguimos ter métricas comparativas bem precisas. Não abra mão de registrar tudo com o máximo de rigor que conseguir.

  3. Não manter registros: Talvez você saiba o que quer medir, mas é importante registrar o máximo de detalhes que puder identificar. Muitas vezes descobrimos algumas relações que não esperávamos apenas quando comparamos todos os dados, até os que pareciam irrelevantes de inicio. Também não jogue suas informações antigas no lixo, elas podem servir de comparação no futuro.

O que você aprendeu até hoje com tudo isso?

Após quase 15 anos fazendo experimentos dos mais diversos, aprendi bastante sobre meu corpo e minha saúde. Alguns aprendizados são até óbvios para algumas pessoas, outros são um pouco mais empolgantes:

  • Se estiver me sentindo fraco e sem motivação, 200 flexões é o número exato para estimular minha autoestima. Não sei o que acontece, mas após 200 flexões me sinto incrivelmente forte. Sugeri este teste para alguns amigos todos disseram sentir o mesmo.

  • Tomar banhos frios influenciam diretamente minha disposição e força de vontade.

  • Não funciono com dietas moderadas. Se eu não cortar de uma vez eliminando total possibilidade de consumir alimentos ruins, certamente vou falhar.

  • Exercícios – mesmo aumentando intensidade, carga, e tudo mais – não promovem perda de peso em mim. Quando existem resultados, são muito pequenos, praticamente desprezíveis.

  • Restrição calórica e anular carboidratos, no entanto, promovem rápida perda de peso.

  • Ficar 21 dias sem reclamar revelou muitos vícios mentais.

  • Após 24 horas em jejum, minha mente funciona muito melhor. Consigo produzir com muita facilidade, mas existem alguns colaterais como a fácil irritabilidade.

  • Apesar do conforto, não dirigir para faculdade e trabalho tem impacto direto no meu humor.

Para concluir, é importante lembrar que testes são positivos, mas precisamos ficar atentos para não colocar nossa saúde em risco. Faça visitas periódicas ao médico, não tente nada que seja extremo sem um acompanhamento profissional. Experimentação pessoal não significa fazer tudo por conta própria, existem pessoas capacitadas que podem nos ajudar a entender melhor os resultados. Deixe sempre alguém avisado do que você está testando no momento, se não for por segurança, que seja para verificar seus métodos.

Caso queira acompanhar meus experimentos mais de perto, criei recentemente uma página no facebook onde passei a relatar alguns dos meus testes, ainda está no começo, mas a interação está bem bacana. Acesse a página aqui.

Caso tenha algum experimento pessoal, compartilhe nos comentários e vamos seguindo a conversa.

Táticas psicológicas para matar seu procrastinador interno

Por muito tempo acreditei que era um robô. Não sei bem por quê. Faltava empatia, emoção e suavidade.

Eu não conversava numa voz robótica como o C-3PO. Mas, por algum motivo, esperava que minhas metas fossem a única coisa influenciando minhas decisões e que eu deveria buscá-las como quem executa um código de computador. A única coisa me separando de algo grandioso era o conjunto certo de metas. Infelizmente, eu sou humano, e não é assim que humanos funcionam.

O que está errado comigo? Eu pensei. Por que estou constantemente agindo contra meus próprios interesses? A resposta se esconde nos genes que herdei do meu ancestral, Bob.

Introdução à preguiça

Bob era preguiçoso. Você não saberia isso apenas observando. Ele caçava, plantava, pescava, fugia e matava quase diariamente. Mas fazia isso por uma necessidade imediata. Ele adoraria ficar sentado o dia inteiro se isso não o levasse à morte certa. Necessidade o fez agir. Não é porque uma criança com uma arma na cabeça está seguindo ordens que isso signifique que ela não é preguiçosa.

Mas o motivo que faz Bob preguiçoso é que ação – toda ação – consome muita caloria. E uma vez que a vida depende de manter um saldo positivo de energia armazenada em relação ao que se gasta, gastar calorias com atividades não essenciais seria ridículo.

Nossos genes carregam a seguinte mensagem:

“Faça o suficiente para sobreviver, não mais que isso.”

Não é a sobrevivência do mais forte, é a sobrevivência do forte o suficiente.

Sim, vivemos em um mundo diferente agora. Caloria é um elemento fácil de se conseguir e, se você elogiar uma mulher pelo seu superávit calórico, provavelmente vai ganhar um tapa. Não existe necessidade de ser protecionista com nossos movimentos. Mais calorias estão apenas a um BigMac de distância.

O Aspecto Mental

Este instinto reverbera em todos os pontos da nossa vida. Como sabemos, preguiça é algo que vai além do movimento corporal. Somos mentalmente preguiçosos também. O problema com atividades mentais é que raramente enxergamos uma recompensa imediata vinda delas.

À medida que o corpo evoluiu, criou mecanismos para nos encorajar a levantar e correr quando uma ameaça aparece. A habilidade de sentar e trabalhar não representa para nós um benefício genético.

Nossa mente é mesquinha, nada boa em calcular valor futuro.

Existe saída?

Felizmente, psicólogos passam tanto tempo estudando nosso cérebro que aprendemos a burlar nossos instintos para alcançar nossos objetivos.

Quando você estrutura suas metas de uma forma que a mente vê como cruciais e imediatamente valiosas (alinha seu cérebro para estar no estado de controlá-las), você se torna capaz de direcionar sua capacidade natural para conquistar qualquer tarefa que tenha pela frente. Não importa quão enfadonho isso pareça.

Vou mostrar minhas técnicas favoritas para aproveitar toda essa capacidade: empregar dissonância cognitiva para forçar seu comportamento a se alinhar aos seus objetivos.

Dissonância cognitiva

Palavras chiques da psicologia assustam um pouco, vamos simplificar. Dissonância cognitiva é a sensação desconfortável de quando a versão da realidade dentro da sua cabeça não combina com o mundo externo.

A reação mais comum quando sentimos isso é o auto-engano. Mais confortável do que compreender o problema e fazer algo quanto a ele, é mais confortável nos convencer de que o problema não existe.

“Ela não pode estar ignorando minhas ligações, ela deve ter perdido o telefone.”

Certo, amigão.

Mas, melhor que se afastar da realidade eliminando a dissonância cognitiva, você vai aprender duas técnicas para amplificar sua dose de realidade. Você vai escancarar essa diferença entre a realidade e sua mente.

Primeiro, como exemplo de como funciona. Estimular a dissonância cognitiva tem sido amplamente utilizado como técnica de manipulação por profissionais de marketing. Para testar sua influência, pesquisadores executaram um famoso experimento no qual pediam para um pequeno grupo de pessoas selecionadas aleatoriamente para colocar uma plaquinha em seu gramado dizendo “Dirija com Segurança”. Praticamente todos concordaram.

Semanas depois, pesquisadores passaram de porta em porta perguntando se poderiam colocar uma grande placa horrível, encorajando direção segura. Os estudos mostraram que as pessoas que anteriormente tinham aceitado colocar as placas pequenas, eram quatro vezes mais inclinadas a aceitar as placas grandes. Colocar uma placa pequena subconscientemente afirma sua percepção própria como uma pessoa contra direção perigosa. Um pequeno lembrete foi o suficiente para influenciar suas ações semanas depois.

E, como muitas técnicas de observação que podem ser utilizadas por nós e por outras pessoas, podemos usar dissonância cognitiva para mudar nossos próprios hábitos. Existem duas formas de conquistar isso:

 

    • Pela afirmação da nossa identidade, nos encorajando a agir em acordo com ela;

 

    • Registrando nosso comportamento para tornar mais evidente a distância entre o que acreditamos e nossas ações.

 

Essencialmente, são dois lados da mesma moeda. O objetivo é nos forçar a enxergar a realidade da forma mais plana possível, de forma que esse desconforto causado pela dissonância cognitiva consiga fazer sua mágica.

Afirme sua identidade com comprometimento

Como no exemplo do “Seja um motorista prudente”, você pode encorajar seu comportamento reafirmando desejos que estejam alinhados com ele. Buscando a lembrança de nossas crenças mais abrangentes, tendemos a agir de acordo com elas.

Isso soa vago, então aqui vai a parte mais importante: coloque seus objetivos no papel.

Escrevendo nossos objetivos, não existe onde se esconder. Se concluí-los, você vence. Caso contrário sabe que falhou. Não permitir que o cérebro se sabote é crucial para se manter motivado. Essa é uma prática que pode ser feita de forma privada, mas é infinitamente mais poderosa se tornar isso público.

Quando executei as 2011 flexões no desafio relatado aqui no PdH, se eu não tivesse tornado a meta publica, me comprometendo de uma forma tão extrema, eu provavelmente não teria conseguido chegar nem na metade do que acabei fazendo.

Anunciar seus planos, metas e crenças para o mundo funciona maravilhosamente para nos motivar a agir no sentido que queremos.

Em um estudo onde um grupo de pessoas de dieta fizeram seus planos públicos no facebook, seu policiamento com a dieta foi altíssimo. A hipótese é que eles não podiam mais se enganar não escolhendo sua comida cuidadosamente nos seus momentos de fraqueza. O capetinha nos seus ombros, sussurrando, “você nunca ligou para essa dieta mesmo”, foi calado.

Os objetos da pesquisa declararam em público a importância de sua dieta. Não segui-la seria como reconhecer sua fraqueza e destruir sua identidade.

Medindo o buraco da realidade

“O que pode ser medido pode ser gerenciado” –Peter Drucker

Registrar nossas ações é outra forma de revelar o buraco entre nossa auto-percepção e a realidade. Como discutimos acima, é fácil nos enganar com noções vagas. Traduzir essas crenças em medições concretas cria uma enorme mudança de comportamento com quase nenhum esforço.

Constantemente mantemos ideias vagas como “eu sou um homem trabalhador” ou “eu me alimento de forma saudável” sem realmente examinar nosso comportamento e ver o que sustenta essas ideias. Nos forçando a ver que os fatos alinham com nossa percepção pode ser bem doloroso.

Continuando com os exemplos da dieta, existe um estudo no qual pesquisadores utilizaram um grupo de voluntários para seguir diferentes planos de dietas. O grupo que se saiu melhor não recebeu instrução alguma. Ao invés disso, pediram que fotografassem toda refeição e besteira que consumissem.

A dissonância cognitiva entre a autopercepção dos praticantes e a realidade do arquivo repleto de fotos modelaram seu comportamento melhor do que qualquer planejamento alimentar faria.

Então, como podemos observar esse comportamento com uma perspectiva de produtividade? Medindo nosso tempo.

Medir nosso tempo é um dos maiores amplificadores de produtividade que já experimentei. Como Sebastian Marshall escreveu uma vez:

“Se você nunca se mediu, não sabe o tamanho do poder que esse hábito tem. Eu não conseguiria explicar isso adequadamente, você não acreditaria em mim. Pensaria que estou exagerando.”

Admita, depois disso, você está pensando em dar uma chance.

Princípios de medição de Tempo

Como o nome da atividade já diz, medir o tempo se baseia basicamente em registrar o que faz com seu tempo. Não existe muito mais o que fazer.

Se é escrever detalhadamente um diário todas as noites, tudo bem. Se significa preencher uma planilha, está bom também. O simples ato de detalhar seu comportamento vai forçar a examiná-lo e aprender com isso. Essencialmente, todos os conselhos a seguir servem a dois propósitos: permitir que você registre as informações mais úteis com o menor esforço possível.

Seguem quatro princípios de medição de tempo que se mostraram bem sucedidos para mim e para pessoas que tenho ajudado.

1. Foque nas coisas certas

Se você não se importa com sua dieta, não escreva o que fez para o café da manhã. Se não se importa com seu sono, não registre quantas horas dormiu. Parece óbvio, mas o impulso de registrar tudo rapidamente se torna esmagador. Mantenha o foco nos hábitos que você quer desenvolver e comportamentos que quer continuar diariamente.

2. Comece pequeno e vá crescendo

Apesar do objetivo de medir seu tempo ser o desenvolvimento de hábitos melhores, medir o tempo por si só é um hábito. E como todos outros, é importante começar pequeno e ir aumentando com o tempo.

Por mais tentador que seja registrar tudo, não se sufoque com 20 páginas complicadas para preencher toda noite. Juro que, se sua planilha for como fazer uma pequena monografia, você não dura uma semana.

Torne isso o mais simples e fácil possível, para virar algo automático na sua vida. Só assim, se você ainda quiser, adicione mais variáveis.

3. Nunca pule um dia

O embalo é uma coisa mágica. Se perder um dia, você se prejudica de duas maneiras. Primeiro, você torna a justificativa mais fácil para as próximas vezes. Segundo, você se sabota e torna o processo bem menos eficiente, assim os benefícios começam a não valer o custo.

O método utilizado por Jerry Seinfield para escrever comédia parte desses dois princípios. Não importa se o que ele produz é bom ou ruim, curto ou longo. Se ele escreve alguma coisa, ele consegue cortar um dia do seu calendário.

Seinfield afirma que o embalo é a chave para não sair da linha.

Siga esse conselho. Nunca pule um dia.

4. Torne as coisas fáceis

Da mesma forma que é importante manter o registro do seu tempo curto. Como mencionado acima, é bem melhor se você preencher seu caderninho com respostas de uma página, do que escrevendo uma monografia.

Tente manter o maior número de perguntas de Sim/Não que for possível. Preencher com números é bom também.

Faça tudo o mais direto e objetivo que conseguir. Faça de forma tão simples que quando estiver muito cansado e for pra cama, não queira deixar de fazer.

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Sobre a Caos Contextual

Nos últimos anos vim escrevendo sobre os mais variados temas, abordando assuntos que vão de exercícios físicos até temas mais densos como ciência e psicologia. Minha pauta costuma seguir os temas que estou envolvido no momento, transportando um pouco do que consumo para quem me acompanha.

No entanto, é difícil adicionar todas as referências, dicas e citações nos textos, o que faz os leitores perderem uma parte do processo que considero bastante rica, o cruzamento de informações instiga minhas inspirações.

Venho pensando em formas de estreitar o contato com as pessoas que acompanham o meu trabalho, um jeito de fornecer mais elementos para quem já se identifica com os textos que produzo. Foi assim que surgiu a ideia de produzir uma Newsletter, um meio onde posso escrever com mais frequência e indicar mais conteúdo interessante.

Não existe custo de assinatura, tudo o que precisa é preencher as informações e enviar o formulário.

Se achar que outras pessoas poderão se beneficiar com este conteúdo, compartilhe a página com elas. Se existir alguma sugestão sobre o conteúdo que deseja receber, basta me enviar um email.

 

Para refletir sobre política

“A política é uma questão séria demais para ser deixada para os políticos”
– Charles de Gaulle

Quando eu tinha por volta dos 25 anos, gostava de dizer que não me interessava por política. O processo político era complicado, com muitos nomes, partidos e direções confusas. Colocava todos os políticos na sacola da corrupção e dizia por aí que não iria discutir o assunto, já que para mim,  nada ia mudar mesmo.

Mas eu estava errado. Não em relação aos políticos – já que corrupção parece ser um traço inerente ao sistema político vigente, e não uma característica natural do indivíduo – mas quanto a necessidade de entender e me aprofundar no assunto.

Antes de começar, é importante entender que possuo meus próprios vícios políticos. Tenho certas inclinações, acredito que algumas ideias funcionam melhor que outras para o desenvolvimento de uma sociedade. Isso não é errado, mas preciso deixar explícito de onde minha visão está partindo, para que você não seja contaminado com uma falsa impressão de imparcialidade. Seria desonesto tentar falar sobre o assunto ocultando uma informação tão importante.

graphFiz recentemente o teste de coordenadas políticas e o resultado precisa ser explicado com um pouco de calma. Isto ajudará na compreensão das nossas direções políticas, aumentando a precisão do debate. O que quero mostrar aqui é que não existe apenas esquerda ou direita.

A maioria das pessoas que conversa comigo diria que sou de esquerda. Sou completamente a favor da legalização das drogas, casamento e adoção por casais do mesmo sexo e da liberdade/igualdade de gênero. Inclusive eu e minha esposa temos uma brincadeira interna, onde dizemos que somos membros da “ditadura feminazi gayzista”, já que defendemos liberdades individuais e as causas das minoria. Temos divergências na visão política, mas nesse ponto tendemos a concordar. Estas são pautas amplamente abraçadas pela esquerda no Brasil, mas na prática isso me define apenas como Liberal, não como esquerda. De forma simplificada, ser enquadrado como Liberal quer dizer que sou a favor do máximo de liberdade, individual e econômica.

Liberdade é o principal pilar da minha orientação política.

No entanto, sou extremamente receoso em relação a intervenções governamentais. Acredito que o governo é ineficiente em todas as esferas que se propõe atuar, fazendo todo processo se tornar mais caro e burocrático do que realmente deveria ser. De forma clara, para mim, o governo deveria intervir o mínimo possível, quanto menos atividades são atribuídas ao Estado, melhor para a população.

Isso não significa, por exemplo, que eu não seja a favor da redistribuição de riquezas. Algo me diz que se não houver o custo da redistribuição, a existência de pobres e miseráveis exigirá um aumento ainda maior no gasto com segurança e proteções individuais. Um custo pelo outro, parece fazer sentido ajudar os que precisam, reduzindo os possíveis incentivos criminais baseados em necessidades extremas.

Entendo que se estivéssemos começando do zero, a um modelo de liberdade econômica total e o destaque de cada indivíduo pelo seu mérito pessoal seria um cenário praticamente perfeito, mas historicamente sabemos que não é assim. Estamos modificando políticas em ambientes caóticos, com um enorme rastro de injustiça e dívida pelo caminho. É necessário que grupos que foram prejudicados ao longo da história tenham o mínimo de possibilidade de entrar na competição da sociedade, para aí sim, exigirmos que o mérito pessoal seja o fator nivelador entre o que é bem ou mal sucedido.

“A liberdade do indivíduo deve ser, portanto, limitada; ele não pode fazer de si uma perturbação para outros”

– John Stuart Mill

É preciso tomar um cuidado adicional para não confundirmos o mapa com o território (mais sobre isso depois). Um mapa é uma abstração simplificada de uma realidade, o território é bem mais confuso e irregular do que pode ser representado por linhas e legendas. Um Estado extremamente reduzido é desejável quando pensamos na teoria, mas sabemos que na prática vamos esbarrar em milhares de obstáculos que não foram passíveis de previsão.

A sociedade é orgânica demais para acreditar em interpretações literais para qualquer direção. Eu considero a agenda liberal como o esboço de um mapa, sabendo que na prática, é preciso ir navegando através do território e fazendo os contornos necessários em cada um dos casos.

quem faz o governo

A democracia como vivemos atualmente é bem distante do modelo concebido na Grécia Antiga, mas pelo que podemos observar em nossa história mais recente, é o modelo que melhor tem funcionado. Se observarmos a matriz de países por nível de democracia [ver], encontramos uma boa correlação entre a qualidade de vida/riqueza dos países e seu nível de democracia. Lembrando sempre que o fato de duas coisas estarem relacionadas entre si, não significa que uma é a causa da outra, mas aqui é um indicador que parece consistente.

Em nosso país, o Presidente é eleito diretamente pela população, que aponta um candidato considerado capaz de exercer a função. Vejo muitas discussões, principalmente de amigos libertários, atacando falhas na democracia como parâmetro para invalidar o modelo político. A democracia tem suas falhas, mas goste ou não, é o sistema político vigente, é o trilho onde o trem da política está deslizando. Todo processo político deve obrigatoriamente seguir através deste trilho, ao menos que estes trilhos sejam modificados.

O governo é composto por pessoas que geraram algum nível de identificação na população. Cada um dos 513 deputados e 81 senadores são representantes dos ~204 milhões de habitantes do território brasileiro. Isso significa que precisamos ter, nesse cenário, pessoas que se comuniquem e entendam das mais diferentes realidades e, mais importante que isso, que estejam dispostos a lutar por essas causas, por mais específicas que algumas sejam.

O caso mais comum é o do deputado Tiririca, semi-analfabeto e eleito com a maioria de votos nas eleições de 2010. Seu sucesso eleitoral foi resultado do chamado “voto de protesto”. O parlamentar assumiu seu cargo sob grande ceticismo e ninguém acreditava que o palhaço, cearense e analfabeto fosse mesmo assumir como deputado. Ao final de seu mandato, o deputado figurou as notícias como um dos melhores parlamentares brasileiros, sendo reeleito para o período seguinte, dessa vez sem polêmicas.

Nosso deputado palhaço representa um traço importante da democracia, que nem sempre o mais capacitado será – ou deve ser – eleito. Isso, lendo friamente, pode parecer algo ruim e absurdo, mas não funciona bem assim. Tiririca entende uma realidade muito específica. Veio de uma região pobre, conhece as dificuldades de quem não tem acesso à educação e viveu os problemas de uma região desfavorecida. Ele é a pessoa que melhor compreende uma fatia da população, cenário que para alguém que estudou numa universidade renomada e cresceu nos grandes centros, com a vida da classe média alta, acaba sendo incompreensível e distante.

O mesmo podemos dizer sobre o deputado – tão odiado pela direita conservadora brasileira – Jean Wyllys. Ele é um dos poucos representantes na Câmara dos Deputados a se preocupar diretamente com os direitos LGBT. Você pode até ser contra suas pautas, mas precisa entender que essas pessoas existem, pagam impostos e merecem ser representadas no governo. Homos e Trans são contribuintes ativos e devem ter representantes que busquem defender seus direitos. Toda essa mistura é parte do jogo democrático. Da mesma forma que existem representantes mais orientados para a direita conservadora, que também defendem ideais e representam outras realidades.

O congresso representa o país, se existem particularidades do lado de fora, é preciso que existam pessoas que comuniquem essas necessidades do lado de dentro.

Deve existir espaço para todas as diferentes visões no tabuleiro político, concorde ou não com a pauta defendida. É preciso lembrar que não são todas as propostas sugeridas que acabam sendo aprovadas. Tudo será votado e, novamente, a maioria define o que faz ou não sentido para aquele momento. Muitas vezes isso é bom, muitas vezes isso é ruim.

No fim, a bola volta pro campo e todos se movimentam tentando marcar o seu gol.

relembrando AS REGRAS DO JOGO

Um princípio básico para se discutir política, é ter conhecimento de quais são as regras vigentes. É muito simples, quando olhamos pela lentes da televisão, definir um ato como bom ou ruim, responsável ou irresponsável, sem nos preocupar em consultar quais são as regras utilizadas para definir este parâmetro.

As leis brasileiras são bastante confusas. Temos uma quantidade esmagadora de códigos, leis e emendas que desenham o contorno das ações políticas, tudo isso como apoio do nosso guia principal, a Constituição Federal de 1988. Este link contém os arquivos com as principais leis e códigos do Brasil, devendo ser favoritado e frequentemente consultado por qualquer pessoa que queira opinar abertamente sobre os acontecimentos políticos, principalmente os que provavelmente estão infringindo alguma lei.

O entendimento da regras garante o funcionamento básico do debate político, evitando que a discussão caminhe para caminhos que não façam sentido. Vamos tomar o popular caso dos justiceiros de rua como exemplo, pessoas amarrando suspeitos em postes e aplicando punições desproporcionais, muitas vezes terminando em tragédia.

A inconsequente repórter televisiva pode dizer que ele mereceu. O desatento comentador político pode dizer que sim, esse tipo de ação é necessária, tendo esse discurso repetido pela população, que acaba agredindo suspeitos e matando inocentes.

Todos sabemos que não existe pena de morte no Brasil. Em nenhuma situação é autorizado que o sistema judiciário tire a vida de um condenado, muito menos que um suspeito seja executado por presunção de crime. A pessoa que acusa não pode ser a mesma que condena, isto poluiria a integridade do julgamento.

A nossa legislação exige que criminosos sejam levados a julgamento, ação que impede erros e abusos por parte da população e dos próprios policiais. Não é uma discussão de lado, de proteger ou ser contra. É simplesmente o conhecimento de que a regra básica do jogo não permite determinado comportamento.

Os discursos inflamados, normalmente da direita mais conservadora, tendem a ir contra essa lógica, dizendo que a regra deve se aplicar apenas para pessoas que também as respeitam. No entanto, a legislação não é – felizmente, nesse caso – baseada no que eu ou você achamos que deve ser. O processo é desenhado para ser o mais justo possível.

A mesma analogia serve para outros muitos exemplos, onde vemos discussões exageradas apoiando ações que claramente vão contra as regras mínimas da sociedade. Antes de cair neste tipo afirmação, vale uma lida na lei relacionada e entender até onde sua opinião faz sentido.

Vale apontar que a justiça possui suas falhas, nem de longe é um processo prefeito, mas é o melhor que temos até o momento. A ausência dessas premissas transformaria a sociedade num cenário caótico. Não precisamos ir muito longe para saber que “olho por olho, dente por dente” não é exatamente o melhor modelo de justiça.

Desobediência Civil não é desculpa criminal

Leis, no entanto, são falhas e frequentemente não representam o comportamento da sociedade. Seres humanos são orgânicos e a sociedade modifica seu comportamento muito mais rápido do que as regras são reformuladas. Algumas determinações prejudicam alguns e favorecem outros, e esse ajuste deve ser feito com o apontamento dos que são afetados.

É muito fácil concluir que algumas regras precisam mudar, enquanto outras precisam apenas de leves ajustes. Basta lembrar que o trabalho escravo já foi permitido para entender que a sociedade evolui e comportamentos que antes eram aceitos, não podem mais ser tolerados. Esta postura é alcançada com protestos, com uma minoria se levantando contra o Estado e o pensamento das maiorias.

Mas infelizmente essa ideia acaba sendo confundida em uma frase rasa e simplificada. É bem comum, quando alguém acaba encurralado por uma lei que caracteriza determinado comportamento como reprovável, surgir com o que podemos chamar de falácia da desobediência civil, a afirmação: “nem toda lei precisa ser respeitada.”

Essa é uma declaração perigosa por dois motivos muito simples. O primeiro é que, se nem toda lei precisa ser respeitada, quais deveriam ser? Ou ainda, quem define o que deve ou não ser respeitado? Se for de livre decisão pessoal, existirá um sério conflito de interesses. Posso pedir que a lei contra roubos e furtos seja aplicável quando alguém tira algo meu, mas fazer vista grossa, e dizer que não é bem assim quando for flagrado desviando dinheiro em contratos públicos. O segundo problema é que essa declaração simplifica demais a visão sobre o funcionamento das leis, tratando-as como uma imposição social trivial, que deve ser respeitada de acordo com a vontade de cada um.

Esta é uma clássica distorção de significado, quando tentam justificar atitudes ilegais sob a desculpa da desobediência civil, ofuscando o real sentido proposto por Henry David Thoreau.

Desobediência civil: é uma forma de protesto político, feito pacificamente, que se opõe a alguma ordem que possui um comportamento de injustiça ou contra um governo visto como opressor pelos desobedientes.

O conceito de Thoreau tem origem na ideia de que o Estado tende a se tornar abusivo, funcionando como um veículo perpetrador de injustiças, principalmente quando os cidadãos aceitam suas decisões de forma passiva. O  nosso senso natural de justiça muitas vezes vai além da permissão do governo ou visão das maiorias.

Nas palavras de John Raws, em “Desobediência Civil segundo Raws“:

A desobediência civil é como um aviso prévio da minoria à maioria, um protesto público não violento endereçado ao sentido de justiça da comunidade ou da sociedade como um todo, no intuito de reverter situações de injustiça

Fica evidente que não podemos desrespeitar as regras buscando benefício próprio, a desobediência civil é uma ferramenta de protesto para conquistar direitos básicos como a liberdade e a vida. Esta forma de protesto se iguala ao direito de greve,  que protege trabalhadores e o direito de revolução, garantindo o exercício de soberania do povo quando se sente oprimido.

Notícias confundem nossa interpretação

Recentemente escrevi um enorme texto sobre as notícias e os problemas que podem causar, então não quero me estender demais sobre o assunto, mas existem algumas ressalvas específicas que preciso fazer.

O trabalho mais difícil, quando falamos de política, é navegar entre todos os ruídos gerados pelos meios de comunicação. Alguns sites possuem uma visão política clara, sendo de conhecimento público o lado que estão defendendo. Outros são mais confusos, transparecendo a direção pessoal de cada um dos autores, mas não concordando – de forma ampla – com nenhuma direção.

A tarefa, para os que gostam de acompanhar notícias, é diferenciar informações importantes de iscas que apenas contaminam a opinião pública.

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Leia a notícia acima, observando o título, e pense com carinho. A maioria acreditar que o ex-presidente foi beneficiado, faz o fato se tornar verdade? O processo de justiça deve ser baseado em evidências ou no que a considera verdadeiro? Qual objetivo de publicar uma notícia que não informa verdadeiramente, apenas usa um dado sem relevância para direcionar opiniões?

É preciso deixar claro aqui que não acredito que o ex-Presidente seja inocente, mas não sou eu, nem mesmo a opinião da maioria que vai defini-lo como culpado, são as apurações e recolhimento de evidências por parte dos policiais e investigadores. Acreditar que algo é verdade não é suficiente para julgar ninguém.

Utilizei o exemplo acima por ser muito simples de ilustrar, mas as vezes essas influências surgem de forma sutil, passando despercebidas, principalmente quando confirmam uma crença pessoal muito forte. Alguns anos atrás, quando Thor Batista atropelou fatalmente um ciclista, as notícias faziam questão de mencionar o modelo do carro esportivo, quem é seu pai e como iam os negócios da família, apresentando inclusive o valor obsceno do carro.

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Informações como essas, além de irrelevantes, conversam diretamente com a crença pública de que os ricos são pessoas más e, por consequência, ele é automaticamente culpado. Novamente, não está em jogo minha opinião pessoal sobre o caso, apenas o questionamento sobre a forma como a notícia influencia nosso posicionamento.

CUIDADO COM PADRÕES duplos

Em tempos de polarização, observamos as pessoas assumindo lados como torcem para times de futebol.

De um lado temos o time vermelho, do outro o time azul. Não importa se o time azul também está perdendo, o time vermelho é sempre o pior. Não importa se os dois times tiveram jogadores expulsos, o outro é sempre o que joga sujo, o meu foi injustiça. Sabe como é, o juiz foi comprado.

Quando vemos lados gritando palavras de ordem, sentimos uma certa incoerência de ambas as partes. Os defensores do Partido dos Trabalhadores protegendo seus políticos como heróis, usando um jogo sujo e perigoso para ofuscar as investigações. Do outro temos a suposta direita brasileira, que esconde seus esqueletos, fazendo um jogo de seletividade para atacar seu adversário..

Geraldo Alckmin está envolvido em inúmeros escândalos no Estado de São Paulo, Beto Richa, do Paraná, não está se saindo muito melhor. O mesmo vale para a “esperança da política brasileira”, Aécio Neves, diretamente citado na Lava Jato inúmeras vezes, mas que faz questão de esquecer tal detalhe ao se pronunciar sobre o envolvimento do Partido dos Trabalhadores na lava jato.

Lula está cada vez mais envolvido em escândalos, sua relação na operação lava jato parece ser cada vez mais evidente. A oposição não é muito diferente, o PSDB nem de longe representa a mudança política positiva que seus apoiadores parecem acreditar.

Quando avaliamos um lado e condenamos seus comportamentos negativos, é imprescindível que apliquemos os mesmos parâmetros para julgar aqueles apoiamos, o nosso lado. Quando defendemos visões extremas de forma cega, aplicando justificativas rasas para nossos padrões distorcidos, não apenas estamos ferindo o debate político, estamos sendo desonestos.

RELIGIÃO NÃO É ARGUMENTO POLÍTICO

Pessoas religiosas utilizam suas crenças como uma forte bússola moral, um conjunto de valores que apontam como devem se comportar diante de determinada situação. Não cabe aqui a discussão sobre as pessoas que se intitulam membros de uma religião mas não seguem as diretrizes propostas, esse assunto é outro. Também não estamos fazendo julgamento se é bom ou não seguir as tais orientações.

Religiões possuem a forte característica de construir valores e transmiti-los como tradições através dos anos, influenciando o comportamento da sociedade em várias direções. No entanto, o mundo está mais globalizado do que nunca, as visões religiosas se diversificaram, fazendo com que seja extremamente difícil definir o que deve ou não ser permitido com base em doutrinas sagradas. Muitas vezes religiões sustentam visões opostas sobre um mesmo tema.

O que caracteriza o Estado laico e faz com que esta seja uma definição favorável à democracia, é a ausência de influências religiosas nas decisões políticas. Essa posição é a garantia de que qualquer pessoa poderá congregar sua fé e seus valores pessoais, sem que alguma religião assuma o poder e se torne opressora, eventualmente proibindo os rituais de outras crenças.

A laicidade do estado anda de mãos dadas com a liberdade religiosa.

Nossa percepção sobre as crenças costuma ser rasa, e quando pensamos sobre o assunto, tendemos a considerar apenas as religiões cristãs, já que teoricamente possuem poucas diferenças entre si. Mas se lembramos que os adventistas guardam o sábado, os testemunhas de Jeová possuem sérias restrições médicas, e que algumas vertentes evangélicas costumam ser intolerantes com as imagens de entidades das outras religiões, o cenário caótico começa a ficar bem evidente.

Por isso é importante evitar, sempre que possível, citar escrituras ou doutrinas religiosas como parâmetro para o funcionamento da sociedade. É abusivo quando uma religião tenta impor sua visão para pessoas que percebem a fé de forma diferente, incluindo aqueles que não possuem um modelo de crença.

o mapa não é o território

 

Nós, seres humanos, não somos muito bons em abstrair ideias complexas, nossa mente tende a remover os detalhes e adicionar um significado amplo a elementos similares, mas que são diferentes entre si, em sua essência. Isto nos auxilia na compreensão geral, mas acabamos desconsiderando diferenças importantes em toda essa simplificação. Ao adotarmos visões reduzidas como uma descrição do todo, deixamos de lado algumas particularidades cruciais.

Quando digo que tenho uma direção política liberal, normalmente me reconhecem como o capitalista truculento, a direita reacionária, o explorador da classe operária. Me identificam como alguém que é contra pautas de esquerda  – mesmo que, no Brasil, muitas pautas da esquerda sejam, de fato, liberais – e que como consequência, acabo diretamente categorizado como alguém que não respeita as causas sociais.

O mesmo tipo de simplificação é aplicada dos apoiadores dos partidos conflitantes no Brasil. Se você é a favor das quotas para negros, automaticamente é petralha, mas se critica o governo Dilma e cobra uma investigação mais rigorosa em cima do PT, é coxinha.

Essa adoção rasa de significados acaba criando uma falsa dicotomia perigosa. Eu, para servir de exemplo, sou contra o governo do PSDB no Paraná, mas apoio muitas da ações do PT na cidade de São Paulo, ao mesmo tempo que o governo Alckmin, no mesmo estado, não me agrada. Na mesma linha, acho que as investigações em cima do ex-Presidente Lula são um passo essencial para o nosso momento político, mas não acredito que o impeachment – a qualquer custo – seja algo realmente positivo, mesmo não sendo aprovador do governo Dilma.

Fica confuso de entender as opiniões quando olhamos diretamente para cada pessoa.

Digo isso para explicar que as visões não precisam – e não podem – ser tão simplificadas. Cada caso tem sua particularidade, cada situação precisa de uma análise que vai além de qual partido está envolvido. Não podemos cair no engano de simplificar cada uma das opiniões nos baseando na categorização exagerada, estereotipada.

Apoiar um partido ou candidato político pode dizer bastante sobre uma pessoa, mas pode também não dizer nada. Este é o ponto onde devemos aplicar o senso crítico, fazendo uma análise pontual de cada um dos cenários.

As alianças políticas e o que cada um desses rótulos defende é virtual, podendo mudar a todo instante, dependendo apenas do que estão tentando proteger e quem buscam atacar. Um novo acordo entre partidos pode representar uma mudança radical de postura. Se nos atermos aos simples rótulos, defendendo-os como fazemos com nossos times no campeonato brasileiro de futebol, podemos acabar apoiando elementos que anteriormente não faríamos, simplesmente porque agora parece tarde demais para mudar um discurso de apoio sustentado por tantos anos.

Na próxima vez que um marciano visitar a Terra, tente explicar-lhe por que aqueles que são a favor da eliminação de um feto dentro do útero da mãe são também contra a pena de morte. Ou tente explicar-lhe porque aqueles que aceitam o aborto são favoráveis a uma alta carga tributária, mas contra um militarismo forte. Por que aqueles que preferem a liberdade sexual precisam ser contra a liberdade econômica individual?”[…]

[…]A aliança atual entre os fundamentalistas cristãos e os lobistas israelenses intrigaria um intelectual do século XIX – os cristãos costumavam ser anti-semitas e os muçulmanos eram os protetores dos judeus, a quem preferiam em relação aos cristãos. Libertários costumavam ser de esquerda. O que acho interessante, enquanto probabilista, é que algum evento aleatório faz com que um grupo que apóia inicialmente uma questão alie-se a outro grupo que apóia outra questão, resultando na fusão e unificação dos itens.. Até a surpresa da separação.[…]

[…]Qualquer redução do mundo ao nosso redor pode ter consequências explosivas, pois exclui algumas fontes de incertezas; as reduções levam-nos a uma compreensão errada do tecido do mundo. Por exemplo, você pode pensar que o islã radical (e seus valores) são seus aliados contra a ameaça do comunismo, e com isso pode ajudá-los a se desenvolver, até que joguem aviões no centro de Manhattan.

– Nassim Nicholas Taleb

É importante ter um lado, saber qual direção política representa o que acreditamos ser melhor para a sociedade e participar do debate em torno do que está acontecendo, inclusive mudando de opinião conforme novas ideias forem surgindo. O que não podemos é tentar fazer tudo a qualquer custo, ignorando algumas premissas básicas e ferindo os limites do convívio social.

O modelo democrático é complicado, principalmente por exigir dedicação e esforço por parte dos membros da sociedade. Se virarmos as costas para o que acontece em Brasília, dificilmente conseguiremos melhorar as coisas. A cada quatro anos todos nos juntamos para escolher as pessoas que estarão ocupando as cadeiras do poder, e entender o que cada detalhe realmente significa, sem simplificações grosseiras, sem clubismo e aplicando a mesma régua para todos, é essencial para que exista qualquer mudança verdadeira.

Adendo: Comecei esse texto buscando escrever um simples guia de coisas a serem observadas quando formos discutir política. O título inicial era “Como discutir política”, assim, de forma ampla. Tentei reescrevê-lo diversas vezes para alcançar este resultado, mas se provou, pelo menos pra mim, impossível escrever imparcialmente sobre o assunto. Meus vieses sempre tornam as coisas mais claras para o lado que eu concordo, fazendo o texto incorporar a minha visão sobre política, mais do que uma direção que instrua os outros em suas direções. 

Não sabemos pensar sobre dinheiro

Gostamos de acreditar que estamos no controle de tudo, quando na verdade somos influenciados pela nossa irracionalidade o tempo todo. Nassim Tahleb, no livro A Lógica do Cisne Negro, afirma categoricamente que pensamos bem menos do que acreditamos. Quando apontamos os pontos de irracionalidade, isso fica bem claro.

Para entender melhor como funciona esse mecanismo, segue um clássico exemplo amplamente utilizado para explicar como nossa irracionalidade guia diversos padrões mentais.

Nesse caso, vamos observar o número de possíveis doadores de orgãos em determinados países.

Observando os dados, vemos que existem países onde 100% da população é doadora de orgãos e do outro lado, países onde este número flutua em torno de 1% a 4%, com pouquíssimas variações para percentuais maiores. Inicialmente, justificaríamos esta discrepância com aspectos culturais ou campanhas populares de conscientização. Entretanto, quando paramos para analisar algumas diferenças entre países de culturas muito similares, como Suécia (86%) e Dinamarca (4%) notamos que o a causa não é exatamente essa.

Seguindo nessa linha, identificamos que países como o nosso, onde por padrão você não é doador de orgãos, tendem a ter um percentual de doadores bem baixo, praticamente inexpressivo, variando apenas de acordo com políticas de divulgação. Já em países onde, por padrão, cidadãos são doadores, a realidade é completamente oposta, com o número de doadores chegando a 100%.

Isso acontece porque seguimos à risca a primeira lei de Newton, que institui a inércia. Se alguém precisa tomar uma ação para se tornar doador de orgãos, ele tende a permanecer não doador, a não ser que reflita bastante sobre o assunto, ou seja levado a tal reflexão por campanhas e políticas. O mesmo serve para o oposto, se você for doador por padrão e precisar fazer alguma coisa para sair desta lista, vai continuar como doador. Chamamos estes padrões de Opt-in e Opt-Out. Escolhemos por ficar onde estamos, por ser mais confortável.

O mais curioso a respeito da nossa incapacidade de racionalizar as coisas, é a capacidade de produzir argumentos para proteger uma decisão aleatória, que não partiu de nossa reflexão. Se questionar um não-doador, o porquê da decisão, ele vai inventar milhares de argumentos para justificar uma escolha que não foi dele, mas que acredita que foi. Wilfred Bion, resume isso de forma brilhante quando diz:

“A razão é escrava da emoção e existe para justificar a experiência emocional.”

Aceitamos o que nos oferecem e inventamos justificativas.

A irracionalidade nos causa prejuízos

Sempre que ouvir falar em dinheiro, troque esta palavra por “custo de oportunidade”. De uma forma simples, quando gastamos dinheiro, estamos eliminando a oportunidade deste dinheiro comprar outra coisa no futuro. Deveríamos sempre considerar isso, mas nossa irracionalidade agrega um valor muito maior ao prazer imediato, tornando essa tarefa muito complicada.

Quando decidimos comprar um sanduíche de R$5,00, estamos escolhendo o lanche ao invés de um aplicativo para o celular ou outra coisa do mesmo valor. Todo dinheiro vem de algum lugar e vai para algum lugar. Se pensarmos em quantias menores talvez não faça diferença, mas qual o custo de oportunidade de um carro que custa 69 mil reais? Quantas viagens, livros, roupas ou projetos pessoais podemos apoiar com todo esse dinheiro? E se comprarmos um carro de 29 mil? O que muda?

Quando optamos pelo veículo de 29 mil reais ao invés do que vale 69 mil, temos 40 mil reais a menos no custo de oportunidade. O suficiente para comprar, além do carro, uma Harley Davidson e uma viagem completa para a Europa. Mas nosso cérebro não sabe fazer esse balanço entre o dinheiro e seu valor.

Nossa mente cria milhares argumentos, motivos para comprarmos o carro mais luxuoso só que, na grande maioria das vezes, são argumentos gerados para justificar uma uma compra irracional. Nosso olhar não consegue ir além do imediatismo. Não consegue identificar que, se gastarmos agora não vamos ter mais a frente para comprar outra coisa, muitas vezes melhor.

Para clarear a ideia, imagine alguém entrando numa loja para comprar um aparelho de som.

O aparelho da marca JONY custa R$1000, o da marca KKE custa R$700, e o Eiwa custa R$500. Estudos apontam que uma pessoa está mais propensa a comprar o aparelho mais caro, por acreditar que é de melhor qualidade e trará menos dores de cabeça, o que nem sempre é verdade. Um aparelho de valor mais abaixo, normalmente vai resolver sua necessidade da mesma forma, com um custo de oportunidade menor.

Entretanto, o mesmo experimento demonstra que, ao igualarmos o valor dos aparelhos JONY e KKE, mas oferecendo de brinde R$300 em cd’s para quem comprar o KKE, a preferência de escolha muda para o aparelho que antes era o intermediário. Novamente, nosso cérebro não consegue fazer a conversão entre oportunidade e satisfação, não abstraímos o que R$300 representa, até a loja mostrar isso, tornando a opção mais tentadora. O Eiwa tende a ser descartado e, por ser mais barato, entende-se que tenha pior qualidade e trará mais problemas. Desprezamos o ponto fora da curva, por não identificarmos a razão de tanta diferença.

O cliente, no primeiro teste, poderia comprar o aparelho intermediário e escolher os R$300 em cd’s por conta própria mas ele não consegue quantificar quanto vale esse dinheiro. Fazemos escolhas ruins porque não é a racionalidade nosso principal guia ao tomar decisões.

Emoções valem mais que grana

Imagine que está andando pela rua e encontra uma pessoa com o pneu do carro furado, essa pessoa anda até você e pede ajuda para trocar o pneu. Você ajudaria? É bem provável que a maioria das pessoas ajude. Agora imagine a mesma situação, mas ao invés de pedir ajuda, a pessoa te oferece R$ 3,00 para você trocar o pneu. E agora? A maioria diria que não, seguindo seu caminho normalmente.

Curiosamente a conclusão que essa história demonstra é: você prefere realizar o mesmo esforço de graça à receber R$ 3 por isso. Parece meio loucura, mas é assim que interpretamos alguns incentivos. Nesse caso, ajudar a resolver um problema de outra pessoa vale muito mais do que a quantia de dinheiro oferecida. Num gráfico, essa relação “Dinheiro x Sentir-se bem” vai crescendo até o ponto onde a quantia em dinheiro é muito maior, passando a valer a pena.

A forma como projetamos nossos sentimentos também conta quando pagamos por serviços. Um chaveiro em seu inicio de carreira, demorava quase uma hora para trocar uma fechadura. Fazia muita sujeira e o trabalho exigia um enorme esforço. Com o passar do tempo, aquisição de melhores ferramentas e mais experiência, a mesma troca de fechadura passou a demorar só alguns minutos. O preço continuou o mesmo, mas quanto menos tempo ele demorava para trocar a fechadura, menos as pessoas estavam dispostas a pagar, reclamando mais do preço.

Segundo o Professor Dan Ariely:

“É mais fácil para nós pagar por algo que requer um grande esforço, assim como é mais difícil pagar por um especialista que executa um trabalho sem esforço. Pagamos mais pela incompetência.”

Nosso sentido irracional nos transmite a sensação de que seriamos nós, tendo todo aquele trabalho, e isso justifica pagar mais pelo maior esforço. Como nos sentimos em relação à uma atividade, conta diretamente para quanto estamos dispostos pagar ou receber pelo serviço.

Para mais uma aplicação da vida prática, as pesquisas destacam que uma pessoa seria mais feliz ganhando menos em um emprego onde é o funcionário mais bem pago da empresa, que em uma empresa onde ganha mais, porém é a pessoa com menor salário da folha de pagamento.

Não é quanto você ganha, mas como você se sente em relação às outras pessoas.

Gastar nos faz sofrer

Tirar o dinheiro do bolso para pagar algo afeta bastante nossa experiência. Quando estamos nos divertindo num barzinho com amigos e a conta chega, somos atingidos pelo que a economia comportamental chama de dor do pagamento.

Para demonstrar isso, imagine que você está indo comer pizza. Na pizzaria o garçom diz que vai cobrar apenas pelas mordidas que você der. Este pode ser um modelo financeiramente eficiente, você paga apenas pelo que consumiu e no final do dia gastou menos dinheiro. Mas quanto você aproveitou este jantar? Os participantes deste teste passaram a dar mordidas muito maiores, comendo pedaços inteiros de uma só vez, eliminando todo prazer que o ato de comer uma pizza pode oferecer.

É importante entender como a dor do pagamento funciona, para podermos amplificar as sensações e entendermos o que realmente estamos fazendo.

Se queremos que alguém compre mais do nosso produto, podemos criar formas de diminuir a dor do pagamento, como vendas à prazo, “comece a pagar só depois do natal”, que atrasa o ponto onde vamos sentir essa dor. Ou para economizar, podemos amplificar o sofrimento, pagando sempre com dinheiro vivo. A dor do pagamento é muito maior quando vemos o dinheiro ir embora imediatamente, facilitando a correlação do custo de oportunidade.

Num exemplo dos mais curiosos, um trabalho publicado no Jornal Consumer Research sustenta a hipótese de que, cartões de crédito aumentam o consumo de alimento não saudável.

“Alguns alimentos tidos como não saudáveis tendem a estimular respostas impulsivas. A dor de pagar em dinheiro pode inibir o impulso de comprar tais alimentos. Pagamentos no cartão de crédito, em contraste, são menos dolorosos e enfraquecem nosso controle de impulsos. Consequentemente, consumidores estão mais dispostos a comprar comidas não saudáveis quando estão pagando com cartão de crédito, do que quando pagam em dinheiro vivo.”

Uma outra forma de reduzir este sofrimento é pagando adiantado. Quando compramos um pacote de viagens, pagando com alguns meses de antecedência e já viajamos com tudo pago, estamos antecipando a aflição do gasto, mas desvinculamos a dor de gastar uma grande quantia em dinheiro da experiência de curtir uma boa viagem. Agora pense no oposto, viajar e ter de pagar por tudo isso logo em seguida. Ficaríamos tão tensos em desembolsar essa grana que não conseguiríamos curtir os últimos dias de viagem.

O professor de economia comportamental, Dan Ariely usou em um curso que fiz, uma dica/exemplo de como lidar com a dor do pagamento numa situação bem corriqueira para nós, a conta do bar com os amigos.

Quando estamos com amigos no bar, tudo está bem tranquilo até hora que em que o garçom chega munido de seu livreto de couro com a conta dentro. Depois disso surge um clima de tensão em relação ao que cada um consumiu, provocando constrangimento e a desconfiança de que o amigo quer te passar para trás.

Neste caso temos 3 ideias gerais de como proceder com a conta:

1. Cada um paga o que consumiu.

Este é um dos piores métodos, o que mais fere a experiência de ter saído para tomar uma cerveja gelada com os amigos. O ambiente de amizade se transforma num conflito financeiro. Fulano comeu da batata frita mas não quer pagar, Ciclano não quer pagar os 10%, outro foi embora e deixou dinheiro pela metade. Tudo isso cria um clima ruim, prejudicando o clima de aproveitamento. Podendo até afetar a forma que os amigos se enxergam dentro da relação de amizade.

2. Todos dividem a conta igualmente

Este é o que mais me agrada, mesmo não sendo o mais eficiente em termos emocionais. Todos dividem igualmente a conta inteira, não existindo conflito de interesses e nem discussão de quem consumiu o que, dividindo igualmente entre todos. Quando acaba, uma vez você paga um pouco a mais do que deveria, outra vez o outro sai um pouco no lucro e, na média geral, todos aprendem a ignorar pequenas diferenças e curtir o fato de estarem se divertindo juntos. Este texto do Gitti fala bem sobre o assunto.

3. Cada vez um dos amigos paga a conta toda

Economicamente este é o melhor cenário. Efetivo tanto do ponto de vista emocional quanto financeiro. Numa mesa com 5 amigos, apenas uma das pessoas vai desembolsar a grana, pagando toda a conta. Desse modo, a noite fica bem mais divertida, e todos os amigos vão estar muito mais felizes, porque teoricamente, ganharam a noite, que vai sair de graça pra eles. A pessoa que vai pagar a conta, por sua vez, tem uma diminuição do sofrimento, porque sente que está fazendo um bem à seus amigos. Obviamente cada semana um dos amigos vai pagar toda a conta, e a média de dinheiro gasto acaba sendo a mesma, só que ao final da noite todos estão bem mais satisfeitos.

Estamos muito perdidos

Todos esses exemplos de como fatores que não levamos em consideração afetam nossa experiência e nossas decisões, apontam para um ponto único: não sabemos, na maior parte do tempo, se o que estamos fazendo é melhor ou pior para nós.

De fato, não sabemos ao menos quais são nossas preferências e menos ainda, não sabemos o que queremos.

Para isso, Dan Ariely afirma que:

“Quando não sabemos o que queremos, utilizamos o ambiente para nos guiar.”

Este conceito é apresentado muito bem por Malcom Gladwell na palestra “Sobre Molho de Tomate”, apresentada no TED Talks.

De forma resumida, Gladwell conta a historia de Howard, um psicofísico famoso por desenvolver produtos. Howard começa uma pesquisa para desenvolver novos sabores de molho de tomate. Na pesquisa inicial com o público, concluíram que estavam todos satisfeitos e não queriam nenhum sabor novo.

Mas quando Howard criou 45 tipos diferentes de combinações de sabores e viajou pelos Estados Unidos, fazendo os consumidores provarem e votarem, o público elegeu um novo favorito. A pesquisa identificou que o público queria na verdade um molho de tomate com pedaços extras, mas que nenhum produto no mercado supria essa necessidade. A produção do produto foi imediata e, nos 10 anos que se seguiram, o molho rendeu um lucro de 600 milhões de dólares.

Faça o teste você mesmo, escreva 5 números num papel, mostre para alguém pedindo a essa pessoa para dizer um número. As pessoas tendem a escolher números contidos na sequência que você mostrou, porque temos dificuldades considerar escolhas que não nos foi dada, mesmo não existindo uma regra limitando a escolha apenas aos números da lista.

Devemos ponderar, quando tomamos alguma decisão, quais fatores estão nos levando a essa escolha e não menos importante, as consequências geradas por essa escolha a longo prazo. Somos facilmente enganados pela nossa incapacidade de visualizar a realidade, tomando decisões baseadas em ilusões e sensações que não compreendemos ou controlamos.

Somos bem menos racionais do que achamos.

 

Tempo, dinheiro e bem estar: como funciona essa relação?

Trabalhei por muitos anos na mesma empresa e, mesmo tendo um salário relativamente bom, sempre soube que poderia ganhar bem mais em alguma outra empresa.

Mas preferi ficar por ali.

Lá eu tinha ampla flexibilidade de horário, podia entrar mais tarde e sair mais cedo, desde que não prejudicasse minhas atividades. Por isso escolhi bem-estar em detrimento do dinheiro.

No geral, nosso critério por emprego segue um indicador muito forte. Escolhemos aquele que paga mais e só depois de saber o salário é que nos preocupamos com outros pontos que possam existir. Em termos gerais, somos péssimos em mensurar estimativas abstratas.

Quanto vale seu tempo?

Quanto vale fazer academia ou aprender um novo idioma? Todas essas noções são bem mais confusas para nosso cérebro do que costumamos considerar. Na contramão, 5 ou 8 mil reais são diferenças claramente visíveis em nossas cabeças.

Eu estava ouvindo o Mamilos Podcast sobre desigualdade social quando começaram a contabilizar alguns fatores de desigualdade que são invisíveis para a maioria das pessoas, mas que na prática fazem brutal diferença.

Seguindo – não literalmente – o exemplo que elas apresentaram, pense em dois jovens estudantes que frequentam a mesma escola particular.

Um deles mora em uma região mais distante e precisa de pelo menos dois ônibus para ir à aula. Passa em média 4 horas do seu dia no trânsito, entre engarrafamentos, caminhadas e troca de transportes. Sua aula começa às 7h10, então precisa acordar às 4h30 para chegar a tempo. O outro mora bem mais próximo, em um bairro de classe média alta e vai para as aulas de carro todos os dias com a mãe, que leva e busca o garoto. Ele acorda às 6h00, toma café da manhã e pega 30 minutos de trânsito até a escola.

Apesar de compartilharem o mesmo ensino, o rendimento do primeiro tem tudo para ser inferior, já que ele assiste às aulas mais cansado e com maiores chances de perder conteúdo. Enquanto ele está no ônibus, na volta, o outro já está há tempos em casa e pode fazer inglês, aulas de reforço, exercícios e outras inúmeras atividades que influenciam seu desenvolvimento, adicionando enorme vantagem competitiva no médio e longo prazo.

O texto não é sobre desigualdade, até porque um cara pode ter pior qualidade de vida por passar 40 minutos de carro no trânsito do que alguém que não tenha veículo e caminha 20 minutos até o trabalho, mas esses exemplos são capazes de apontar com muita eficiência a importância do tempo e como sua disponibilidade representa uma diferença imensa em relação aos que têm seu tempo comprometido.

Por mais contra-intuitivo que possa parecer, dinheiro não é exatamente nossa moeda corrente. Estamos o tempo todo negociando tempo. Nosso salário é o que recebemos por vender nosso tempo para uma empresa. Quando contratamos um serviço, estamos pagando o tempo de outra pessoa, para poupar o nosso. Quando escolho um táxi em vez do ônibus, pago mais caro para chegar mais rápido. Existem, obviamente, outros fatores no meio dessas relações mas, no geral, estamos apenas trocando dinheiro por tempo, seja nosso ou dos outros.

Não estou dizendo que dinheiro não tem importância, mas a máxima abaixo é verdadeira:

Mais dinheiro nem sempre significa mais felicidade

Todo mundo já se deparou com um possível valor salarial e pensou, “se eu ganhasse tudo isso seria tão bom, resolveria todos os meus problemas”. Mas quando passou a receber tal quantia, não foi bem o que aconteceu.

De forma ampla, existe um ponto salarial em que ainda sentimos essa diferença, que ganhar mais significa ter mais dignidade e acesso aos meios e ferramentas que facilitam e melhoram a vida. Depois desse ponto específico, essa relação não cresce como antes.

O aumento do salário não trará uma sensação maior de felicidade.

Este é o momento em que razões mudam e ter mais tempo passa a significar mais qualidade de vida.

É preciso certo sangue frio para encarar a situação e pensar com clareza, entender se é mesmo mais dinheiro de que precisamos naquele momento. Pode parecer estranho, mas trocar o aumento tão esperado por uma hora a menos de trabalho, poder entrar mais tarde ou sair mais cedo, talvez traga mais satisfação do que uma razoável quantia de dinheiro.

Com uma hora extra você pode dormir melhor, acordar de bom humor e se arrumar com mais calma. Só essa calma que o horário mais estendido adiciona já se reflete diretamente no resto do dia. Dá pra fazer academia, pegar menos trânsito, cortar o cabelo, se maquiar com calma, aprender um idioma novo, brincar com o filho e pegar um pouco de sol caminhando no parque.

Como começar a virar essa chave?

Nossa relação com o dinheiro e sua importância está tão enraizada em nossa cultura que acaba atrapalhando nossa percepção do que realmente estamos buscando. No meio do furacão, deixamos de lado nossa racionalidade, nos afundamos no trabalho para ganhar cada vez mais. Queremos uma casa maior, um carro melhor, um smartphone mais novo. Trocamos todo nosso tempo por coisas que custam muito mais caro do que apenas o dinheiro que pagamos por elas.

Falo, neste texto, apenas da relação entre trabalho/ dinheiro e trabalho/tempo, mas não precisamos nos limitar a isso. Podemos sempre olhar a nossa volta e pensar em como fazer esse câmbio entre dinheiro e bem-estar.

Quando apontamos nossa mira para o dinheiro, todo o resto se torna um meio de ganhar cada vez mais, num ciclo infinito. Se mudarmos o foco para o bem estar, dinheiro passa a ser apenas uma peça que nos facilita até determinado ponto, não fazendo mais muito sentido sacrificar coisas tão mais valiosas apenas para faturar um pouco mais.

E o leitor? Quais as formas que utiliza para sair da urgência de ter cada vez mais dinheiro e começar a viver com mais leveza?

Enriqueça o texto compartilhando sua visão nos comentários.

publicado 20 de Julho de 2015, em Papodehomem.com.br

Como manjar dos paranauês (ou como aprender quase tudo)

São 10 horas da manhã, você está sentado em um cubículo, olhando o tempo passar. É um daqueles dias normais, nada de importante acontece. É possível que você esteja entre a quarta ou quinta xícara de café, sua desculpa social para caminhar pelo escritório sem fazer nada e ninguém achar que está enrolando.

É nessa hora que você começa a passear pelo interminável buraco negro da timeline no Facebook. Enquanto rola a lista infinita, acaba vendo algum vídeo ou foto interessante, algo – raro – que realmente chama sua atenção. Pode ser alguém tocando guitarra, andando de patins ou lutando com confiança. Poderia ser qualquer coisa mesmo, um origami, uma pintura, um texto delicioso ou um japonês montando um cubo mágico em 5 segundos. Entre o misto de admiração e alegria, surge um pensamento solto, como um fio de linha numa blusa de lã.

“Eu queria ser bom em alguma coisa.”

Sem nem perceber passa a puxar o fio, desfazendo a ideia e se remoendo sobre todas as tentativas de ser bom em alguma coisa. Aquela aula de dança que não rolou, aquele ukulele que parecia muito mais fácil no vídeo do Youtube do que quando comprou e, por isso, ficou um ano encostado na sala de casa.

É ai que você devolve o copo para mesa e se pergunta, como eu faço pra ser bom em alguma coisa?

Entendendo o que é ser bom em algo

Quando levantamos a dolorosa questão de como podemos ser bom em alguma coisa, precisamos entender com precisão o que isso significa para nós, para não nos perdemos no meio do caminho.

Malcolm Gladwell em seu popular trabalho Outliers, jogou no ventilador a teoria das 10 mil horas. A ideia incorreta de Gladwell cresceu em proporções inimagináveis. O que era um estudo dizendo que músicos e atletas de alta performance tinham em média todo esse tempo de prática, virou o postulado “São necessárias 10 mil horas de prática para se tornar um especialista”, que na boca do povo agora simplesmente quer dizer: “Você precisa de 10 mil horas para aprender alguma coisa”.

Essa noção vem se espalhando, trazendo a impressão de que é necessário muito mais tempo e esforço para aprender qualquer coisa do que realmente é, e obviamente, impedindo que pessoas ao menos considerem tentar.

Quando você se matricula na aula MMA, seu plano não é ser o próximo Anderson Silva – tirando quando você realmente pretende ser competidor de alto nível – seu objetivo será apenas começar a treinar, conseguir executar os golpes, derrubar o oponente e ter fôlego para resistir durante os 5 minutos de uma luta. O problema é que seu referencial ao longo das outras semanas começa a mudar. O que seria suficiente para você, agora, não parece mais tão interessante.

Alguém que queria simplesmente fazer uma atividade física, curtir um esporte e dar uns socos, agora conhece 30 caras melhores. Nosso personagem provavelmente alcançaria o nível imaginado numa média de 4 meses, treinando 1 hora por dia, três vezes por semana. Ele não seria o melhor da academia e nem mesmo ganharia das pessoas que treinam há mais tempo que ele, mas certamente teria uma visualização confortável do seu objetivo na luta, entenderia os golpes que pode usar e um conjunto – limitado – de técnicas que o permitam se desenvolver numa luta básica. Em comparação com um leigo, nosso praticante seria um bom lutador.

Ser bom em algo só funciona quando apontamos um referencial claro, mas quando mudamos esse ponto diariamente, fica fácil concluir que não existe progresso. Pior ainda, as pessoas que não fazem parte do contexto tentarão impor novos referenciais ainda mais altos.

Perguntarão, antes mesmo de completar 2 meses de treino, se você lutaria no UFC, se conseguiria ganhar do José Aldo, se sabe dar aquele golpe avassalador que viralizou no Youtube e por aí vai. Sua barra, que era simples e possível, agora faz você realmente acreditar que são necessárias 10 mil horas para ser bom em alguma coisa.

Eu treino numa academia onde mais da metade dos frequentadores são fisiculturistas em algum nível, seja profissional, amador ou entusiasta. Eu não quero ficar grande, fortão. No geral tenho o corpo que gostaria de ter, treino para manter e fazer experimentos de ganho de força, velocidade e outras características que, naquele contexto, só importam para mim. Infelizmente, acabo contaminado pela atmosfera das pessoas ao meu redor.

É muito comum chegar de um treino, abrir uma planilha e começar meu planejamento para ganhar volume. É muito fácil perder o foco do que você realmente quer alcançar quando está constantemente sendo direcionado para outro lugar. Não são poucas as vezes que preciso me lembrar, “cara, qual é seu propósito aqui? então relaxa”. Se é difícil para alguém que faz isso há uma década, quem dirá para alguém que caiu de paraquedas num mundo completamente novo?

Se você não faz algo, não sabe muito sobre aquilo e decidiu se arriscar, lembre-se disso: Ser bom é conseguir desenvolver o roteiro básico com confiança. Nada além disso.

Josh Kaufman tem um livro chamado “As 20 primeiras horas”, onde, indignado com a ideia de que seriam necessárias 10mil horas para aprender algo novo, resolveu fazer sua própria pesquisa.

Kaufman encontrou que, na verdade, ficamos muito bons com pouquíssimas horas de prática. mas que em determinado ponto, a curva de aprendizado vai se tornando mais acentuada, sendo necessário muito mais horas para melhorar.

A teoria é de que independente do que for, se você dedicar não mais que 45 minutos por dia de prática, em um mês você será razoavelmente bom naquilo.

A vergonha e o medo inicial

Nada é fácil de começo. Você pode até encontrar uma predisposição, um certo talento, mas tudo exigirá uma curva de aprendizado, um período que não apenas te deixa envergonhado, mas aflora o grande medo de falhar.

Falhar nunca é bom e certamente não parece legal começar algo pensando que não vai funcionar, certo? Não exatamente.

Sabemos que somos ruins no começo de tudo, mas nos recusamos a aceitar isso. Se eu nunca pintei com pincel e aquarela, não posso esperar que na primeira tentativa eu crie algo minimamente aceitável. É óbvio que existem exceções, mas normalmente não somos nós, os casos comuns. Devemos esperar que as primeiras horas sejam terríveis, desconfortáveis e muitas vezes ridicularizantes. Aprender qualquer coisa exige passar pelo processo de reconhecimento, de associação de sentidos, caso contrário não existiria aprendizado.

É nesse ponto que a maioria de nós desiste de fazer qualquer coisa. Quando tentamos fazer o primeiro exercício de matemática e não conseguimos, quando escutamos a primeira audioaula de inglês e não entendemos nada do que foi dito ou, até mesmo, quando chegamos na academia sem nunca ter treinado e broxamos quando o cover do Schwarzenegger aparece levantando 100kg a mais do que a gente. Por algum motivo, nos recusamos a aceitar que precisamos começar de algum lugar e que esse lugar tem grandes chances de ser desconfortável.

É crucial aceitar que não temos como nos comparar com ninguém a não ser a gente. Que cada caso é único, que todos ali passaram por aquilo, até mesmo os que não lembram.

Durante os últimos anos eu quis me tornar bom em jogos online, desenvolvendo um certo esforço para isso. Durante essa fase inicial de vergonha, muitas vezes alguém tentava me ofender do outro lado do vídeo game: “Seu iniciante! Você é muito ruim!”, minha resposta não poderia ser outra, a não ser: estranho seria se fosse diferente.

Abrace sua causa e tenha orgulho disso

Uma das coisas que nos impede de desenvolver nossa capacidade de ser bom em algo, é o medo de entrar de cabeça. Não digo largar tudo e fazer só uma coisa, mas se deixar envolver emocionalmente com o assunto.

Sempre fui muito, muito ruim em física e matemática, falo isso com convicção. Mas me entreguei à ideia de fazer um novo curso e decidi me envolver com todo tipo de conteúdo possível sobre o assunto.

Em pouco tempo eu passei a conviver com tantos termos, ideias e conceitos, simplesmente por estar sempre lendo sobre curiosidades, vendo vídeos e pesquisando histórias, que qualquer pessoa que não faz parte desse meio consideraria que eu sou excelente nisso.

Ao decidir, por exemplo, aprender um idioma novo, inscreva-se em páginas do Facebook sobre o estudo do idioma, acesse sites, jornais, compre livros, quadrinhos e tudo o que puder no idioma desejado, mesmo que por muito tempo você só entenda algumas palavras.

Com a prática, as outras coisas que você não entende ainda, se tornarão padrões claros no futuro.

Se uma palavra aparece várias vezes, esse padrão se torna comum para você, mesmo que não entenda o que ela signifique agora. Depois de tanto ser exposto, saber o significado dela será um simples fato para compreender melhor seu uso.

O exemplo do idioma serve para qualquer coisa. Muitas vezes temos vergonha de parecer bobo diante das outras pessoas, mas isso não deveria importar muito, basta colocar na conta das horas de vergonha inicial.

Quem me conhece sabe que sou um fanático por aprender coisas novas, que estou o tempo todo entrando em campos diferentes, aprendendo e imergindo em conteúdos variados. As pessoas se acostumam e, quando você perceber, terá se tornado referência do assunto para muitas delas.

Essa nossa vergonha vem de ouvir as pessoas dizerem que “foi só uma moda”, como se não pudéssemos experimentar coisas novas, não gostar e passar para outra. Para quem não tenta, é fácil julgar e achar que só porque imergimos em algo somos obrigados a nos prender para sempre naquilo.

Assuma um método

Não é apenas sair praticando de qualquer jeito por aí, por 20 horas, que vai fazer você ficar bom em algo, um pequeno método é necessário para que esse número seja o mais próximo do real.

O método abaixo é sugerido por Josh Kaufman em seu livro.

1. Desconstrua

Toda prática é a união de pequenas habilidades que podem ser separadas. Tocar violão é conhecer os acordes mais comuns, entender como eles se combinam, saber como bater as cordas e conseguir ler esses acordes. Lutar Muay Thai é um conjunto de posicionamento das mãos, movimento dos pés, postura, golpes e estratégia.

Ao separar esses elementos, você consegue treiná-los separadamente e combiná-los futuramente, tornando o seu aprendizado mais eficiente e menos confuso.

2. Autocorreção

Procure observar pessoas melhores que você executando o que pretende fazer. É imprescindível entender como uma execução perfeita funciona e, a partir disso, conseguir corrigir falhas e erros sozinho. Eu venho treinando levantamento de peso olímpico e, para isso, gasto horas observando vídeos em câmera lenta para entender como é a exata postura dos levantadores profissionais em comparação aos meus próprios vídeos em câmera lenta.

Envio meus vídeos para amigos instrutores de levantamento e inicio um intenso processo de teste, observação e ajuste. Este tipo de observação pode ser mais delicado ou mais simples dependendo do que queremos aprender, mas aprender o suficiente para se autocorrigir é a chave do aprendizado.

3. O complexo falha

Um dos motivos que falhamos ao tentar aprender algo novo é a complexidade de começar a praticar. Para treinar guitarra, eu preciso desenrolar meus cabos, tirar meu amplificador que está guardado atrás da mesa, ligar todo o conglomerado de cabos na pedaleira, dar mais uma limpada na guitarra, afinar (as vezes até trocar a corda) e, aí sim, tocar. Nisso, 40 minutos se passaram apenas preparando o terreno.

Da próxima vez que for treinar, já terei preguiça só de lembrar do processo. Por isso, se quero treinar guitarra, deixo tudo pronto e ligado, num lugar onde não vá incomodar ninguém. Reduzindo os passos a simplesmente sentar e tocar. Tente remover barreiras e simplificar as coisas.

4. Treine por pelo menos 20 horas

Persista por, pelo menos, esse tempo. Vai ser difícil e vai exigir um pouco de resistência emocional, mas não se deixe abalar. Se quiser, compre um caderninho e anote quantas horas praticou naquele dia, todos os dias até completar as 20 horas.

Depois disso, se não estiver razoavelmente bom no que tentou, pode vir compartilhar seus problemas nos comentários.

Você não vai ser o melhor

Não mesmo. Mas isso também não importa.

Você não precisa ser o melhor em nada para ter alguma relevância e ser considerado bom no que faz.

Nirvana foi uma banda que marcou sua época, existindo atualmente poucas que podem se igualar em termos de impacto. Agora se formos comparar o nível técnico dos músicos do Nirvana com qualquer outra banda, vamos ver que nenhuma música exige mais do que suas 20 horas de prática para serem tocadas. No entanto, conheço inúmeras bandas de músicos extremamente mais técnicos, que não causaram impacto algum, nem sequer se tornaram conhecidas.

Os Beatles estavam longe de ser os melhores músicos em cada um dos instrumentos que tocavam, mas também deixaram sua marca.

E. L. James e Stephanie Meyer são extremamente criticadas por não serem boas escritoras, mas juntas venderam mais livros do que praticamente todos os autores brasileiros, salvo raríssimas exceções.

Julgamentos qualitativos a parte, ser bom significa fazer algo com o pouco que sabe, mesmo que esse pouco seja bem básico. O que gera fascínio é a capacidade de aplicação desse aprendizado.

Uma sugestão e um desafio

Antes de finalizar, queria fazer uma sugestão e um desafio, ao mesmo tempo.

Compartilhe conosco suas experiências, contando o que você já tentou aprender e não conseguiu.

Quais foram os problemas enfrentados? Como buscou superar? Tentou mais de uma vez e conseguiu na segunda?

Toda nossa informação de falha pode ajudar outras pessoas a entender que a dificuldade faz parte do processo.

Se ainda não tentou nada que gostaria, eis meu desafio: tente.

De resto, se errar, se ficar feio, se sentir vergonha, vamos conversando.

Não existe perfeição

Nos últimos textos desenhamos alguns caminhos para conseguir fazer todas aquelas coisas que nos propomos. Conversamos sobre gerenciamento do tempo e os critérios na escolha de objetivos. Iniciar nossas atividades é, sem dúvida o passo mais importante, só que existe algo que atrasa todos os prazos, destrói projetos e impede muita gente de concluir seus planos.

O perfeccionismo é uma daquelas mentiras contadas mil vezes, e que se tornam verdades virtuais. Perfeccionismo é um processo perigoso e extremamente prejudicial para quem busca atender prazos e construir seus planos.
Para entender melhor a relação entre a busca pelo perfeccionismo e o risco para produtividade, apresento alguns exemplos.

Quando eu quis agradar todo mundo

Ano passado tive a ideia de automatizar algumas respostas que eu precisava dar com muita frequência. Por estar envolvido no meio do Parkour, muitos iniciantes me procuravam para perguntar como deveriam começar. Para isso tive a ideia criar um site bem simples, com 10 textos básicos para qualquer iniciante ser capaz de dar os primeiros passos e descobrir seu caminho na atividade.
Quando estava criando o visual do Parkour Lab, enviei o primeiro visual para várias pessoas, muitas gostaram e outras apontaram itens que deveriam ser modificados.

Nisso, comecei uma busca de quase 3 meses desenhando, alterando o layout, refazendo todas as partes até tentar agradar todo mundo. Gastei centenas de horas tentando fazer o site perfeito, e isso nunca aconteceu. O projeto só foi estava ficando de lado. Quando me dei conta disso, voltei para o primeiro modelo que havia escolhido e construí todo conteúdo em cima dele.

Em menos de 5 dias estava no ar, com milhares de acessos diários.

Eu gastei muito tempo me preocupando com algo que, se fosse bom, seria perfeito, mas não era o foco do produto. Eu não precisava ter um site dinâmico, com visual arrojado e experiência de leitura única. Eu precisava passar a mensagem que as pessoas estavam procurando. O conteúdo precisava trazer a informação necessária, o visual era apenas um apoio.

Até hoje, recebendo o feedback dos usuários, nenhum deles se queixou de dificuldades relacionadas ao design ou leitura.

Todos aprovaram o conteúdo.

Foco no objetivo

É muito fácil começar a observar pontos que não estão na forma mais perfeita quando estamos dentro do processo e conhecemos os menores detalhes de tudo. O importante quando enrolamos demais polindo arestas de algum trabalho ou projeto, é nos perguntar se a mensagem central está sendo entregue com clareza. Se meu plano é transmitir textos sobre como iniciar no Parkour, a estética da página se torna secundária, desde que ela também não atrapalhe o resultado da comunicação. Obviamente, se eu conseguir montar tudo num super design, é bem melhor, mas se não é um critério essencial do projeto, não há motivo para atrasar o prazo. Pode ficar pra depois.

Durante as divulgações do Cern sobre o progresso na busca pelo Bóson de Higgs no Large Hadron Collider, considerado o maior projeto da história da humanidade, pude observar que os cientistas apresentaram os resultados utilizando fundos em cores gritantes e fontes horrorosas. Resolvi então questionar meu amigo cientista, Dr. Rodrigo Vargas, sobre o motivo dos pesquisadores não darem uma atenção maior na apresentação dos resultados, praticamente jogando as informações de qualquer jeito na tela.

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“O senso estético dos cientistas é bem diferente do pessoal de fora, eles nem sabem porque não deveriam usar determinada fonte. Normalmente os slides são bem antigos e os modelos reaproveitados, o que importa mesmo é transmitir os resultados com eficiência.”

Isso não significa que visual não seja importante, longe disso. Ao iniciar um projeto, entretanto, precisamos determinar quais são os critérios de aceitação, e nos prender a eles. Se design for um dos itens cruciais, que seja usado o esforço necessário para apresentar o melhor resultado.

O que não podemos fazer, é gastar mais tempo trabalhando em itens não essenciais do que forjando o núcleo principal. Muitas vezes gastamos tempo demais nos preocupando com coisas que nosso público nem vai perceber.

Perfeição é um processo

Também não prego que devemos fazer tudo de qualquer jeito. Sou partidário de fazer tudo da melhor forma possível, desde que isso não atrapalhe os prazos e, caso não exista uma data limite, essa busca não acabe congelando o projeto. Isso é crucial principalmente para aqueles que possuem projetos pessoais paralelos, onde para algo acontecer só depende da aprovação deles mesmos.

Praticamente todo tipo de trabalho é passível de revisão e melhoria. A entrega inicial raramente representa um estado estático de qualidade. A primeira versão do iPhone, por exemplo, era longe de ser perfeita. Fazia o básico proposto com altíssima qualidade, era lindo como é padrão da Apple, mas faltavam vários outros recursos bem comuns em aparelhos lançados na mesma época.

Foi preferível eliminar funções como 3G e o mais básico, envio de imagens por SMS, para priorizar e entregar o que era realmente importante para a empresa no momento: a mensagem de um novo aparelho de alta tecnologia com tela controlada por toque. As melhorias foram feitas ao longo do tempo, com atualizações no sistema operacional do aparelho. Hoje, já na sexta versão, o iPhone ainda está longe de ser perfeito, mas avançou absurdamente desde sua primeira versão.

Recentemente decidi que faria um vlog para falar dos esportes, lutas e treinos que gosto. Passei um bom tempo tomando coragem para expor meu rosto numa câmera e lançar o video no Youtube. O medo de ficar ruim, de ser ridicularizado e não estar num padrão de qualidade aceitável me seguraram a ponto de fazer dezenas de testes e nunca levar pra frente.
Destravei quando eu aceitei o fato de que o projeto não precisa iniciar perfeitamente. A qualidade do áudio não vai ser a melhor, alguns erros vão acontecer e vai demorar uns 20 episódios até conseguir criar desenvoltura o suficiente para me soltar na câmera.

Depois do episódio piloto, ouvi todas as críticas apontando alguns problemas, mas sei que, se eu não tivesse seguido adiante e aceitado cada uma das imperfeições, meu projeto nunca teria saído do papel, o que seria muito pior pra mim.

(plot twist, abandonei o vlog)

O perfeito não existe

Com o passar do tempo, me envolvendo com cada vez mais atividades, pude perceber que não existe coisa como a tal perfeição. Essa vontade de alcançar e criar algo que possa ser chamado de perfeito, é uma projeção do nosso ego, aplicada nas coisas que fazemos. Queremos ser invejados e elogiados, queremos que as pessoas olhem e não consigam criticar, mesmo que o ponto em julgamento seja algo extremamente subjetivo.

Aplicamos este mesmo critério de julgamento em nós mesmos e nas pessoas que nos relacionamos, tentando encontrar algo raro, livre de falhas.

Assim como nos trabalhos, a paranoia da perfeição também nos leva para o fracasso nas relações pessoais. Por isso, em ambos os casos, o caminho mais prudente é se focar no que realmente importa e trabalhar as pequenas falhas aos poucos, uma a uma, mas sempre entendendo que as vezes, a imperfeição é apenas um adorno para a perfeição.

publicado originalmente 29 de Setembro de 2014, em Papodehomem.com.br

Um post sobre mim

Há alguns anos eu estava morando num apartamento bem pequeno, bem próximo ao centro de Brasília. Era uma quitinete de 23 metros quadrados, sem divisões ou móveis. Tudo que tinha lá era basicamente um colchão inflável – que esvaziava no meio da noite, meu notebook – comprado antes de entrar nessa fase ruim e, curiosamente, um cubo mágico, presente de um grande amigo.

Passei muitas horas trancado dentro de casa sem internet, televisão ou outras formas de entretenimento. Baixar filmes e séries em outros lugares era trabalhoso, nem sempre era possível. Minhas opções de diversão eram bem limitadas, então acabei me dedicando ao cubo mágico.

Gastei pelo menos duas semanas até conseguir montar o brinquedo pela primeira vez. Mesmo lendo os algoritmos e seguindo um método, confesso que não foi uma tarefa fácil. Virei boas madrugadas me sentindo burro e incapaz. Depois de finalmente organizar as cores do cubo mágico, criei a meta montá-lo 100 vezes por dia, assim eu poderia memorizar os comandos e não precisaria mais ler as instruções toda vez que quisesse brincar com o cubo.

Lembro de alguns meses depois estar subindo no elevador do prédio onde trabalhava. Um amigo de trabalho sempre me desafiava, pedindo para tentar montar o cubo antes do elevador alcançar o nosso andar. Neste dia, quando consegui montar o cubo poucos segundos antes da porta abrir, uma senhora me olhou e disse: “Nossa, quem me dera ter uma inteligência dessas”, comentário que me deixou bastante intrigado.

Aprender a manusear este quebra-cabeças me ensinou algumas coisas sobre a vida. A primeira é que tudo é difícil no começo. Se para algumas pessoas é fácil, tudo bem, não podemos nos guiar sempre pela capacidade alheia. Para nós, a maioria, esforço sempre será necessário para conquistar qualquer habilidade nova. A segunda é que dedicação e treino sempre vencem o talento. Não importa quanta facilidade os outros possuem em determinada tarefa, se tivermos fôlego para continuar tentando, podemos nos destacar em praticamente tudo. E a última, mas igualmente importante, é que as pessoas não sabem o quanto foi difícil conquistar aquilo. Quando alguém vê o resultado de meses – ou anos – de dedicação, em qualquer área, não costumam levar todo empenho em consideração, acaba sendo mais fácil atribuir o bom desempenho ao seu suposto talento e aptidão natural.

A notícia boa – ou ruim, dependendo de como olha –  é que todo mundo que é bom em algo, trabalhou bastante para chegar até ali, não tem mágica.

O exemplo do cubo mágico ilustra um pouco de como enxergo a vida. Gosto de me sentir desafiado e buscar a solução de problemas. Todo meu trabalho com escrita, por todos esses anos, é apenas um relato deste processo. Um compilado de experiências adquiridas nas aventuras que fui me envolvendo.

Meu propósito com esse trabalho pode soar cliché, mas não consigo descrever este sentimento que me motiva de outra forma. Meu objetivo aqui é mudar a vida das pessoas. Seja com uma leve mudança de perspectiva sobre um assunto, um traço de esperança ou uma inspiração para começar algo novo. Sei que não serei o vento da mudança, mas fico feliz se for a faísca do incêndio.

Agora que você entende um pouco melhor minha cabeça, muito prazer:

Meu nome é Alberto Brandão, tenho 31 anos e um monte de histórias pra contar.

Vou tentar pontuar o que acho mais importante para saber sobre mim, caso achem que falta algo e queiram perguntar, meu email está no fim desta página.

Se você está lendo esta página e decidiu continuar acompanhando meus textos, agradeço de coração o carinho pelo meu trabalho. Os textos são longos e sei que exige certo esforço para acompanhar tudo que escrevo. Se de alguma forma se identificou com o que faço e gostaria de falar comigo, meu email é me[at]alberto[dot]io. Será um prazer receber sua mensagem e entender melhor as pessoas que me acompanham.

Se chegou aqui e não sabe o que ler primeiro, gosto bastante deste texto, pode ser um bom começo.

Se quiser me encontrar nas redes sociais, os links são: Facebook, Instagram, Twitter, Linkedin.